Com a expansão do acesso à internet para várias camadas da população brasileira, pessoas que antes eram marginalizadas, não tinham voz e ficavam à mercê dos grandes veículos da mídia conseguiram mostrar sua realidade, protestar sobre o que achavam errado e disseminar sua cultura e seus hábitos.
Muitas dessas pessoas vêm de favelas e comunidades carentes que não conseguiam se identificar com a chamada cultura do asfalto. Todo um universo à parte foi construído nessas comunidades e agora ganham um tratamento especial, livre de preconceitos, feito por uma emissora de TV.
O intuito do programa “Reis da Rua”, a TV Cultura, em parceira com a produtora Mosquito Project, foi investigar quem são essas pessoas que mudaram o ângulo de visão do mundo em relação à periferia.
Marca
O programa é composto por 18 episódios. Cada um deles traz minidocumentários mostrando a vida de alguns líderes das periferias urbanas, acompanhando a relação com os amigos e a família, além de mostrar como funciona o trabalho de cada uma dessas pessoas que se destacam em seu universo.
Para produzir a abertura do programa o Estúdio GotaCX foi chamado e apresentou um trabalho impecável que deixa de lado os estereótipos e preconceitos quanto ao universo da periferia e nos mostra uma outra visão sobre esses “Reis da Rua”.
Processo Criativo
A abertura enfatiza o lado nobre de cada uma dessas pessoas mantendo a conexão com as comunidades carentes através das palavras e expressões típicas desse universo aparecendo ao longo da vinheta.
Em entrevista, o diretor da abertura Cristiano Trindade, esclarece detalhes sobre os bastidores da produção e as ideias por trás da construção da vinheta:
Entrevista: Cristiano Trindade
Qual foi o briefing recebido para a produção do vídeo?
Cristiano Trindade - O programa procura retratar moradores de periferia, que são verdadeiras celebridades locais. De alguma forma são referência para seu entorno, são personagens que possuem muita popularidade nas suas “quebradas”, mas que não possuem destaque nos meios de comunicação.
Qual o conceito aplicado na vinheta?
Cristiano Trindade - Procurei estabelecer uma conexão criativa entre a realeza tradicional contida no nome REIS DA RUA, e as referências populares atuais das periferias do Brasil. O ícone da bandeira nos reinados medievais, por exemplo, eram símbolos de unidade e identidade, que vinham à frente das comitivas dos reis, representando seu povo. Assim como uma vinheta audiovisual vem à frente do seu conteúdo, dando uma identidade à diversidade de temas que serão abordados durante um programa. O processo da confecção da bandeira é uma metáfora direta em relação à construção de um retrato que o programa fez dos personagens participantes da série. Personagens estes que foram escolhidos e imortalizados no programa, assim como uma academia de notáveis, que sempre possuem uma bandeira símbolo para representar seus imortais. A imagem do cachorro vira-lata é uma homenagem ao mais popular rei das ruas do Brasil, presente de alguma forma em todos os episódios da série.
Como foi decidido trabalhar com captação de imagens junto à interferência de computação gráfica?
Cristiano Trindade - O programa em si já tinha uma proposta narrativa mais sofisticada, um pouco mais imersiva em relação aos programas da TV aberta em geral. Essa linguagem demandava uma abertura mais trabalhada, com um roteiro mais completo, o suficiente para criar um hiato que possibilitasse ao espectador uma introdução no conteúdo. A opção pela captação foi a forma mais coerente para estabelecer essa conexão com a linguagem do programa. Os episódios da série ampliavam, como uma lente de aumento, micro universos dos seu personagens, daí então utilizar lentes macro para captar um processo comum da confecção de uma bandeira e trazer para as imagens da vinheta uma riqueza de detalhes e informação que normalmente são ofuscados por um enquadramento mais aberto.
Durante a vinheta temos palavras e expressões que remetem à linguagem que costumamos associar com a periferia paulistana, onde elas se encaixam ao conceito?
Cristiano Trindade - Todo povo possui sua cultura, seu idioma, suas especificidades. Essas expressões são parte do vocabulário desse “reino”.
Quanto tempo durou toda a produção da vinheta, desde as primeiras ideias até o produto final?
Cristiano Trindade - Durou aproximadamente 4 semanas.
Como foi o processo de produção da vinheta?
Cristiano Trindade - Após os tratamentos da idéia e o desenvolvimento do conceito, criamos um moodboard para ambientar o universo imagético que precisaria ser identificado na identidade do programa. A partir daí desenvolvi o roteiro e o shooting board para as filmagens, nessa parte tive o apoio de produção da equipe da Mosquito. Depois edição e composição.Paralelamente, meus parceiros da Neutra foram desenvolvendo a trilha sob medida para a abertura.
Que referências você buscou para construir a peça?
Cristiano Trindade - Foram várias referências, dentre elas destaque para o universo das bandeiras de time de futebol, os pôsteres de streetart, as escolas de samba e suas porta-bandeiras, uma série de ícones populares dentro e fora da periferia, capazes de comunicar a grandeza das histórias dos personagens retratados no programa.
Ficha Técnica
Ano: 2011
Canal: TV Cultura
Produção: Estúdio GotaCX e Mosquito Project
Direção: Cristiano Trindade
Sound Design: Neutra Produtora de Som
Fonte: Televisual



















