Por que 2015 será um ótimo ano para a televisão

8 jan

Se considerarmos 2014 um ano de vitórias para a televisão, o que virá em 2015? Os canais tradicionais da TV aberta dos EUA, as emissoras a cabo e as plataformas de streaming alteraram a maneira de se fazer negócios e elevaram o jogo para as produções televisivas. No próximo ano, a onda de novidades positivas que atingiu o mercado televisivo americano e refletiu no brasileiro promete não perder força. O que podemos esperar?

Mais cinema na TV

Em janeiro de 2014, a HBO reforçou mais uma vez sua fama de pioneira ao trazer dois grandes astros do cinema, um deles agraciado com o Oscar de Melhor Ator, ao colocar “True Detective” no ar. O impacto para a audiência foi tanto que elevou uma série que passaria batido como mais um ‘cop show’ ao status de drama de prestígio, tão visado por todas as produtoras de conteúdo.

Relembrando o público que o formato de antologia merece um lugar ao sol, “True Detective” mantém seu principal atrativo e prometeu trazer outros astros do cinema para protagonizar a segunda temporada. Vince Vaughn, Colin Farrell e Rachel McAdams estrelarão os novos 8 episódios, em que mais um misterioso assassinato, dessa vez cometido na California, será solucionado.

A tendência, que não é nova, mas ganhou em “True Detective” seu maior destaque, se espalhou por outras grandes emissoras a cabo. “Fargo”, a excelente produção do FX baseada no famoso filme dos irmãos Coen dos anos 1990, trará ninguém menos do que Kirsten Dunst para protagonizar sua segunda temporada. A série, favorita de boa parte dos críticos, se passará em 1979 e vai narrar uma história anterior a da primeira temporada.

Set da primeira temporada de True Detective

De trás das câmeras, o cineasta Steven Soderbergh que, por diversas vezes, já manifestou sua desilusão com a indústria cinematográfica, assumiu as rédeas do drama de época “The Knick”. Com Clive Owen como protagonista, “The Knick” trouxe algo que sempre foi renegado para o segundo plano na televisão, mercado em que roteiristas são soberanos: o foco em direção. A nova temporada, prevista para agosto de 2015, vai contar com o mesmo zelo do diretor em todos os episódios.

Diversificar é o caminho

Mas nem só da diáspora do cinema vive a boa fase da televisão. Se existe uma evidência de que 2014 foi um ano diferente para o meio, ela está na diversificação por trás dos maiores sucessos do ano. A maior prova disso é a ABC ter escolhido sua mais proficiente fazedora de hits, Shonda Rhimes, para dominar um de seus dias de maior audiência.

Nas quintas-feiras do canal – que um dia perdeu para comédias da NBC e da CBS – a produtora de Rhimes, Shondaland, controla a grade de programação com a veterana Grey’s Anatomy, a implacável “Scandal” e o novo sucesso, coordenado por um pupilo de Shonda, “How To Get Away With Murder”.

Estrelada por outra frequentadora assídua dos Oscars, Viola Davis, HTGAWM trouxe nova vida às produções da Shondaland e foi elogiada pelo elenco diversificado (incluindo negros, latinos e personagens gays que não repetem clichês) numa trama de mistério que ainda tem muito a crescer.

Nas sextas-feiras, o canal abriu espaço para a criadora Cristela Alonzo, comediante de longa data que dirige e estrela seu próprio show com foco numa estudante de direito latina e sua família de classe média baixa. Mesmo com a audiência ínfima típica do dia e horário de exibição, a série ganhou temporada completa como voto de confiança da emissora.

Steven Soderbergh no set de The Knick

No geral, mais showrunners mulheres ampliaram seus domínios em produções para canais abertos, fechados e streaming. Barbara Hall, produtora de pequenos sucessos como “Joan of Arcadia” e blockbusters como“Homeland”, assumiu sua própria série, “Madam Secretary”. Embora tenha uma trama branda que ainda não decolou, o show é um sucesso de audiência da CBS aos domingos, um dos dias mais disputados da TV.

Sarah Treem, a mente por trás da adaptação de “In Treatment” na HBO, ressurgiu no Showtime com o sucesso discreto de “The Affair”. A produção, focada em diálogos e que divide seu tempo entre dois protagonistas contando versões diferentes da mesma história, já ganhou reconhecimento dos votantes do Globo de Ouro 2015 mesmo antes do final de sua temporada.

Se juntando a Jenji Kohan e o sucesso “Orange Is The New Black”, Jill Solloway deu ao mundo “Transparent”, a história de Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor), uma mulher trans que demora décadas de sua vida para encontrar seu lugar no mundo e traz com ela sua família egocêntrica. Ambas as produções são frutos da internet, o que fez da Netflix e da novata Amazon Prime pesos pesados na disputa por reconhecimento como legítimos competidores no mercado. As duas séries estréiam novas temporadas em 2015.

Correndo mais por fora do que as produções em plataformas inovadoras,“Jane The Virgin”, uma série da CW, foi uma das maiores surpresas na reta final de 2014 e promete crescer ainda mais no ano seguinte. Como em “Ugly Betty” na sua melhor fase, o foco está em uma protagonista latina interpretada por um talento desconhecido, no uso de diálogos inteiros em espanhol (com legendas) e inspirada em telenovelas mexicanas para construir um roteiro que parece mais arrojado a cada episódio. Fechando a lista das comédias indicadas para o Globo de Ouro em janeiro, Jane é a prova de que a televisão está mudando e mudando para melhor.

Apesar de ser um dos menores canais da TV aberta americana e ainda ter o rótulo de teen, a CW foi essencial para trazer novidades revigorantes para a TV em 2014, apostando em elencos diversificados e histórias com uma abordagem mais leve.

Shonda Rhimes

A TV não é o futuro da TV

Não bastando o sucesso, tanto a Netflix quanto a Amazon planejam ainda mais estreias para o futuro próximo. Em entrevista, Ted Sarandos, chefe de conteúdo do Netflix, afirmou que a plataforma pretende lançar a quantia nada modesta de 20 shows por ano. Sua última estréia de 2014, “Marco Polo”, ainda não mostrou a que veio junto à crítica, mas já é a aposta mais cara feita pela Netflix em parceria com a Weinstein Company, com custo de 90 milhões de dólares por 10 episódios.

Para Reed Hastings, CEO da Netflix, a era da TV – como conhecemos hoje em dia – vai provavelmente acabar até 2030. Profecia que já começaremos a sentir em 2015, ano em que séries canceladas como “Community” voltam ao ar via streaming enquanto inúmeras outras procuram o mesmo bote de salvação.

Mercado em expansão

Sabendo disso, não é a toa que os canais estejam investindo em diversidade em suas grades, seja nos formatos de produção, seja nos públicos de nicho que querem atingir. Todas essas mudanças podem ser sentidas também nos mercados internacionais.

Em artigo para o The Wall Street Journal, executivos de uma das maiores produtoras do planeta, a Warner Bros., admitem que o licenciamento de programas de TV produzidos em Hollywood para canais fora dos Estados Unidos nunca foi tão lucrativo, já que eles proporcionam uma fonte de receita num momento em que o mercado doméstico perde força graças a queda da audiência diante de tantas possibilidades de canais e ofertas.

No Brasil, as exportações chegam com pompa assumindo horários de destaque nos canais a cabo Warner, Sony, Fox, entre outros. O investimento de US$ 4 milhões por episódio de “Gotham” é um dos principais chamativos – já que a trama da série por si só não é. A tendência promete ficar ainda mais comum em 2015 quando novos pilotos forem lançados, já que primeiras temporadas tendem a dar retorno mais rapidamente.

Fernando Meirelles no set de Felizes Para Sempre

Hora do Brasil

O impacto de tudo isso em produções nacionais pode parecer pequeno, mas 2014 provou que não é insignificante. Apesar de atrair a massa da sua audiência por meio das novelas, a Rede Globo usa o investimento pontual em séries e minisséries para expandir o potencial de sua grade. Nesse ano, seis séries preencheram a grade do canal. “A Teia”, “Doce de Mãe” (cujo telefilme garantiu o Emmy Internacional de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro), “O Caçador”, “Segunda Dama”, “O Sexo e as Negas”“Dupla Identidade”.

Com uma média de 10 episódios, cinematografia mais caprichada que a da maioria das novelas e investimento em gêneros policiais ou dramas cômicos, as séries da Globo procuram seu caminho para refletir o que o público, acostumado com cada vez mais produções de fora, espera.

As expectativas para que uma dessas apostas se torne um fenômeno em 2015 são altas. Tanto é que o canal começa janeiro com a novidade “Felizes para Sempre”. Escrita por Euclydes Marinho e com dez capítulos, o programa é uma releitura de “Quem Ama Não Mata”, minissérie exibida em 1982, que conta a história de cinco casais envolvidos em um crime passional.

Gravação de Masterchef

Paralelamente, a Band encerrou o ano com uma das maiores audiências do canal ao exibir a final de sua versão do reality show “Masterchef”.

O programa, sucesso também na internet, renderá uma segunda temporada e pode crescer para alcançar a fase atual dos realities nos EUA. No Brasil, graças ao êxito do “Big Brother”, “A Fazenda”, “Ídolos” e “The Voice”, os realities permanecem atrelados ao formato que cria estrelas instantâneas. As competições de talento que não geram apenas celebridades podem abrir uma nova era para programas com maior especificidade.

Não seria a primeira vez que tivemos destaque nessa categoria de programa. Entretanto, apesar do sucesso das várias fases de “O Aprendiz”, o reality permaneceu preso a figura de seu apresentador, e não se expandiu para inspirar novas versões ou apostas mais elaboradas.

O que o êxito de “Masterchef” promete, com programas como “Cozinheiros em Ação” no SBT surgindo em sua cola, é resgatar o interesse do público pelo formato e permitir que ele se torne cada vez menos amador. Foi assim com“Project Runway” em 2004 nos EUA e pode ser assim a partir de 2015 com a segunda temporada de “Masterchef”.

Diversidade de programação, mais representatividade de gênero, novas plataformas de lançamento e um mercado que encontra maneiras ousadas de crescer expandindo internacionalmente e influenciando a programação de outros países, a televisão pode até “morrer” enquanto formato tradicional, como profetiza o CEO do Netflix, mas certamente o espírito de suas produções, cada vez mais abundantes e variadas, nunca foi tão forte quanto será em 2015.

Fonte:
Screen Shot 2015-01-05 at 9.48.04 AM

Fotografia: Joe Pugliese/THR; Kevin Scanlon; Mary Rozzi/THR; Zé Paulo Cardeal/Globo; Rodrigo Belentani/Band
Este post foi publicado originalmente no Spoilers.tv.br.

Texto: Denis Pacheco

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