O Cinema Digital – Parte 01 | Marcello Caldin

11 jul

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Sejam todos bem-vindos a esta nova série de matérias sobre o tema: Cinema Digital. Aqui vamos desenvolver, de uma maneira acessível, alguns conceitos de como se trabalhar com essa tecnologia. Afinal, o que é preciso aprender sobre o tema? E o mais importante: O que muda no seu dia a dia quando se trabalha com o Cinema Digital? Eu sempre tenho a impressão de que os profissionais do nosso mercado estão bastante desorientados sobre esse tema e têm a necessidade de parar por um instante e estudar com mais calma.

site_rolo

Quando eu comecei a trabalhar com a montagem de filmes, lá pela década de 1990, lembro de ficar até de madrugada no estúdio acompanhando as filmagens das cenas com as câmeras 35mm e tinha um fascínio enorme por toda aquela tecnologia. A parte mais engraçada desse processo todo era a correria que acontecia após essas filmagens, pois o diretor de fotografia corria com os rolos de filmes diretamente para o laboratório de revelação. Sim, naquela época tinha de revelar os rolos e torcer para que nada dessa errado com as químicas. Era feito então uma cópia dos rolos para fitas Betacam Digital e então, o processo de edição era possível nas estações Avid Media Composer. Importante destacar que existiam muitos detalhes técnicos envolvidos nisso, como a conversão de uma cena captada em 24 quadros para 30 quadros, pois na fita de vídeo era possível apenas aceitar um sinal entrelaçado em sistema NTSC.

site_avid

Sei que falar sobre essas histórias antigas é no mínimo estranho para você, que hoje usa o seu laptop e provavelmente nunca editou as imagens de maneira linear. E ainda, seria mais engraçado se eu te falasse, que antes do Avid Media Composer, todos os filmes eram editados e cortados manualmente através da moviola. Não, eu não peguei essa época da moviola, mas é fundamental entender, que a utilização do Avid Media Composer foi um grande divisor de águas no mercado de Cinema Digital, pois foi o primeiro grande passo tecnológico.

Hoje é até difícil os editores entenderem, que o Avid Media Composer foi criado como substituição da moviola e passou a ser uma moviola digital. Agora não se cortava mais fisicamente os rolos na edição, pois isso era feito através do programa. Esse corte nos rolos era feito apenas no processo final da montagem, quando depois de se ter o filme aprovado, o Avid Media Composer gerava um arquivo de texto muito pequeno, chamado de Cut List (Lista de Corte) e enviado para o montador de filmes. O montador lia esse arquivo de lista de corte e efetuava os cortes físicos nos rolos e assim, depois de muito trabalho, criava o filme todo cortado e montado. Assim nascia o conceito de edição Online e Offline, que vamos entender com mais profundidade agora.

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O filme por ter a maior qualidade de imagem é nomeado como o seu material Online e a fita Betacam Digital, por ser usada como material de referência do filme é nomeado como Offline. Claro que esses conceitos são bastante variáveis, de acordo com o tipo de fluxo de trabalho em que você está inserido. Aqui é necessária a compreensão de qual será a maneira com que você exibe o seu material e para qual segmento de mercado este está sendo desenvolvido.

Por exemplo: se as suas cenas terão por destino final de exibição o cinema, é claro que a fita Betacam Digital não se aplica como sendo a de maior qualidade  e por isso, a fita é apenas uma maneira mais acessível de se editar, sendo denominada de Offline. Já em outra situação mais tradicional, quando eu estou montando um filme para ser exibido na televisão, a fita Betacam Digital passa a ser nomeada de Online, por ter a qualidade necessária e equivalente ao destino final de exibição, que é a televisão. Por isso, antes de nomear o que é Online ou Offline, você deve determinar qual é o destino final de exibição do seu material.

Hoje nós já temos esse conceito bastante difundido e compreendido no nosso mercado, mas como eu já mencionei antes, é algo que pode sofrer variações enormes diante do fluxo de trabalho aplicado. É até engraçado perceber que hoje, após o anúncio das novas câmeras de cinema digital em 8K, o fabricante descreve e nomeia o 4K como opção para Offline. Ou seja, existe um mundo de diferença em cada ambiente de trabalho e nomear o que é Online e o que é Offline, as vezes passa a ser engraçado. 

site_ursa

Hoje o conceito que determina o que é Online ou Offline, dentro de um ambiente digital de trabalho, é justamente a qualidade da conversão do arquivo aplicado a uma imagem em formato RAW. Quando se fala em Cinema Digital, estamos falando de câmeras como a RED, Arri, Blackmagic Design, etc, e que têm a sua gravação em formato de negativo digital, em substituição aos filmes tradicionais e que necessitavam ser revelados.

Eu gostaria de falar um pouco sobre esses conceitos utilizando como exemplo, a câmera da Blackmagic Design, a Ursa Mini 4,6K, que está chegando ao nosso mercado como uma grande solução para o Cinema Digital, sendo ao mesmo tempo uma consolidação do fabricante e também um parâmetro de custo para os profissionais. Este modelo de câmera está inserido através da utilização de um sensor Super 35mm e oferece 15 escalas de latitude.

Sempre que eu leio sobre um novo equipamento, eu desejo saber qual a qualidade do arquivo final e suas variações de compressão. Esta é sempre a primeira grande avaliação a ser feita. Em seu arquivo 4,6K RAW sem compressão, a câmera oferece uma taxa de dados de 513 MB por segundo, totalizando um arquivo de 17,1 MB por quadro, ou seja, é muita informação. Assim, será muito natural afirmar, que eu tenho a qualidade necessária para exibir essas cenas na tela de cinema. E ainda, com uma profundidade de cor de 12 bit, todo o processo de color grading será muito tranquilo e sem surpresas desagradáveis. Então, este arquivo RAW de 17,1 MB por quadro, será denominado de Online dentro do meu sistema de trabalho e agora eu preciso determinar como será criado e nomeado o meu arquivo Offline.

site_prores

A primeira grande decisão que você tem de fazer, quando inicia um trabalho, é determinar qual é o tipo de arquivo que você irá gravar. Nesse exemplo que eu estou desenvolvendo, a escolha foi um arquivo 4,6K RAW, utilizando uma câmera Ursa Mini. Esse é o meu arquivo Online. Até agora, tudo parece ser muito simples. O próximo passo é que exigirá uma avaliação mais profunda, a escolha do meu arquivo Offline.

Esta escolha envolve primeiro a avaliação do tipo de memória que o seu sistema está apto a suportar. Você está usando um sistema de discos RAID? Qual a taxa de dados que este sistema suporta? E sobretudo, qual seria o arquivo comprimido, que o seu sistema trabalha com maior produtividade? Uma boa maneira de se ponderar sobre o tipo de compressão mais produtivo é de primeiro, reduzir o tamanho da imagem original de 4,6K para um arquivo em alta definição. Já nesse processo, muita informação será descartada, deixando o arquivo mais leve e rápido de ser lido pelo seu sistema.

Vamos experimentar algumas opções de conversão utilizando o ProRes da Apple para imagens em alta definição, levando sempre em avaliação, que em  um quadro 4,6K RAW temos um arquivo com 17,1MB:

  • ProRes 422 Proxy – quadro com 0,187 MB.
  • ProRes 422 LT – quadro com 0,425 MB.
  • ProRes 422 –  quadro com 0,612 MB.
  • ProRes 422 HQ – quadro com 0,916 MB.
  • ProRes 444 – quadro com, 1,375 MB.

Seria muito natural e lógico dizer, que a utilização do ProRes 422 Proxy é a melhor opção, pois gera um arquivo muito leve e que oferece uma boa visualização das cenas, sendo possível editar em um sistema de edição muito barato e leve como um laptop e disco externo USB de baixo custo. Por isso, esta compressão pode ser aplicada para a geração dos meus arquivos Offline.

Não nos esqueçamos que neste tipo de sistema Online e Offline, será necessário depois da aprovação da edição, a geração de um arquivo XML ou AAF para se finalizar os arquivos Online em um programa diferente ao da edição, ou então substituir os arquivos RAW à sua edição Offline. Ou seja, você precisará voltar a utilizar os seus arquivos com maior qualidade através de um programa de edição e color grading. Você poderá fazer isso tranquilamente através de um Adobe Premiere, Avid Media Composer ou Blackmagic Design DaVinci.

Lembrando que quando você estiver finalizando a sua edição Online, o seu sistema de discos terá de suportar uma taxa de dados de 513 MB por segundo, que o 4,6K RAW demanda. E isso, só será alcançado por um sistema de discos em RAID com uma performance superior de 513 MB por segundo. Verifique sempre com o fabricante do seu sistema de discos RAID, qual é a taxa de dados por segundo, pois caso contrário, o seu sistema pode não suportar uma edição Online.

site_davinci

Eu gostaria de falar um pouco mais detalhadamente sobre o DaVinci e por isso, vou voltar um pouco na linha do tempo. Poucos profissionais hoje sabem, que antes do DaVinci se tornar o programa de color grading mais desejável do país, este antes era um equipamento de telecinagem. Isso mesmo, quando trabalhávamos com rolos de filmes e era preciso transferir as cenas filmadas em 35mm para o tape, isso era feito através da telecinagem. E também, quando era preciso colorir as imagens, o DaVinci era o melhor equipamento para essa função. Lembro dos diretores de fotografias passando as noites nas empresas de finalização, acompanhando os coloristas e suas maravilhas realizadas no DaVinci. Era um processo óptico, muito diferente do que temos hoje, mas um filme 35mm telecinado no DaVinci não encontrava concorrentes.

Só para ilustrar um pouco mais a matéria, o telecine DaVinci custava apenas 1 milhão de dólares (sim, você leu certo). Por isso, quando você estiver baixando gratuitamente o programa do site da Blackmagic Design, reflita um pouco mais sobre o que você está recebendo como ferramenta de trabalho.

Eu sempre menciono nas minhas palestras, a questão do desenvolvimento de tecnologia de cor feita pelos fabricantes e recentemente, eu estava explicando a um novo editor, justamente sobre a diferença entre os programas de color grading, mas talvez para um profissional que não tenha visto esse processo de telecinagem, realmente fique complicado entender sobre o que eu estou falando.

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Quando eu penso sobre como desenvolver o meu fluxo de trabalho, muitas reflexões são feitas, desde o tipo de câmera usada, até qual o programa de edição que se encaixa melhor. Eu sempre tive muitas desconfianças sobre a produtividade de programas gratuitos, justamente por não acreditar em Papai Noel, mas venho avaliando com muita atenção as iniciativas da Blackmagic Design sobre o DaVinci e a sua nova interface de edição.

Vale destacar, que quando eu estou montando um filme no Avid Media Composer e o material é aprovado, inicio o processo de color grading através de um arquivo AAF enviado para o DaVinci. Nunca encontrei um problema de falta de sincronia entre a minha montagem e o DaVinci e isso me traz uma confiabilidade enorme com o fabricante. Já fui obrigado a montar alguns filmes no Adobe Premiere e de gerar arquivo XML para ser lido no DaVinci e te confesso, que encontro problemas de sincronia. Decidi não usar mais este fluxo de trabalho Adobe Premiere com DaVinci e acabei optando por colorir os materiais através do Adobe SpeedGrade. Problema solucionado. Não alcanço os mesmos resultados de cor no SpeedGrade, mas nesse fluxo de trabalho, essa é ainda é a minha melhor solução.

Estou iniciando alguns trabalhos inteiramente montados dentro do DaVinci e te digo que é muito promissor. Muitos de vocês irão concordar comigo, que a troca de programas de montagem é um assunto delicado, e que cada profissional tem a sua preferência pessoal. Acredito que neste momento da matéria seja necessária uma reflexão: Qual é o tipo de material que você está montando? É um filme ou um vídeo? Claro que todos vocês entenderão o tema a que eu estou me referindo, pois tem sim a sua diferença no conceito do trabalho.

Em uma montagem de filme, eu não necessito de efeitos ou texturas, o que eu preciso é de arte na montagem. Já em uma edição de vídeo é fundamental a integração com programas de efeitos, como o Adobe After Effects e todo o processo de color grading acaba por ficar em segundo plano, pois não existe tempo hábil para isso. Eu sempre sou questionado pelos profissionais sobre esta questão e muitas vezes é difícil explicar o tema, sem antes falar de tudo o que escrevi nessa matéria.

Existe um princípio em cada tecnologia e a maneira como esta foi desenvolvida, e isso meus amigos, determina sempre nas suas escolhas de fluxo de trabalho. Não existe programa melhor ou pior, mas quando você entende, que este programa foi criado para um determinado fluxo de trabalho, tudo fica mais fácil. Eu percebo muito profissionais “brigando” com os programas e de certa maneira, forçando que este ou aquele programa tenha um resultado diferente para o qual foi desenvolvido. Claro que o fabricante vai sempre enfatizar, que o seu programa é a melhor solução e que resolve qualquer trabalho, isso pode até ser verdade, mas quando estamos dentro de um trabalho longo e extenso, sabemos bem, que uma deficiência de fluência no fluxo ou até mesmo uma interrupção por falta de compatibilidade, é sem dúvida algo terrível.

Uma dica: preste muita atenção ao desenvolvimento do DaVinci, pois ainda veremos muitas surpresas boas sobre o assunto. Seja por simples curiosidade ou seja por uma necessidade de reduzir os seus custos de produção, baixe o programa e faça os seus testes e avaliações profissionais.

Sobre Marcello Caldin:

– Editor e colorista de comerciais e filmes desde 1989.

  • Instrutor de Avid Media Composer e Symphony.
  • Instrutor de Blackmagic Design DaVinci.

– Consultor técnico para emissoras de televisão e produtoras. (Rede Globo)

  • Repórter Fotográfico. (Pastoral da Criança e Instituto GRPCOM)
  • Criador do Workshop “O Fluxo de trabalho – Uma reflexão sobre o uso inteligente da tecnologia”

Contato:
E-mail – marcellocaldin@marcellocaldin.com

Matérias antigas:

https://oeditor.com/category/marcello-caldin/

Na minha próxima matéria eu vou desenvolver algumas explicações e reflexões sobre algumas funcionalidades do DaVinci, como correção primária de cor e geração de arquivos Offline, que com certeza irá fazer você pensar em mudar e melhorar o seu fluxo de trabalho. Aguardem porque irá ser muito bacana!!

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Uma resposta to “O Cinema Digital – Parte 01 | Marcello Caldin”

  1. Gustavo 11/07/2016 às 15:59 #

    Excelente artigo! Desde que conheci o DaVinci Resolve, na sua versão 8, fiz várias tentativas de utilização no meu fluxo de trabalho, através do Final Cut Pro X, mas apenas obtive resultados de sincronização satisfatórios, através de arquivos XML, nas últimas versões.
    No momento estou optando pelo plugin Color Finale, que apresenta ajustes de curvas e importação de Lut, semelhante ao Lumetri no Adobe Premiere.
    Através do acompanhamento do desenvolvimento das novas versões do DaVinci Resolve, acredito que ele está próximo de se tornar um editor completo e ser muito mais utilizado nos mais variados tipos de produção.

Divulgue! www.oeditor.com

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