O Cinema Digital – Parte 6 | Marcello Caldin

15 ago

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Sejam todos bem-vindos à sexta parte dessa série de matérias sobre o tema: Cinema Digital. Quanta informação nós já compartilhamos por aqui!!! E em cada novo texto as reflexões técnicas avançam. Hoje eu gostaria de abordar um assunto, que muitas vezes não é considerado com a devida atenção: Medição de sinal. Tenho certeza de que todos vocês já ouviram falar sobre o Waveform e o Vectorscope, mas ainda têm certas dúvidas sobre estes instrumentos, e que atualmente estão mais difundidos por causa da popularização dos programas de correção de cor. Vamos em frente!!

site_rolo

Primeiro, eu gostaria de enfatizar o significado do monitor de vídeo, pois existe um enorme erro dentro do nosso mercado… Muitos entendem isto apenas como o aparelho eletrônico aonde se assiste as imagens, ou seja, uma televisão. Quando eu uso a palavra monitor de vídeo dentro do universo do Cinema Digital, o seu significado técnico correto é descrito como instrumento de medição de sinal e sim, é preciso entender dos aspectos envolvidos como: espaço de cor, LUT, Waveforme e Vectorscope. Um monitor de vídeo possui funções avançadas para exibir as imagens de uma maneira igual à captação das câmeras, evitando assim, erros de leitura e de ajustes desnecessários.

site_smpte

Antes de se falar sobre qualquer ferramenta de medição, todos nós precisamos entender as razões para se realizar este procedimento, pois afinal, de nada adianta medir sem se saber as suas reais aplicações. Pode parecer redundante o que eu vou afirmar, mas é preciso que se mencione isso. A Society of Motion Picture & Television Engineers (SMPTE) é uma entidade voltada ao desenvolvimento e pesquisa dos padrões de transmissão para a televisão e o cinema. Talvez você possa nunca ter ouvido falar sobre a SMPTE, mas com toda a certeza já utilizou as suas ferramentas, mesmo sem ter notado isso.

site_colorbar

Você reconhece este padrão de teste desenvolvido pela SMPTE? A famosa barra de cores? Pois bem, existe uma razão simples para que esta barra de cores esteja disponível nas câmeras e equipamentos eletrônicos utilizados nas emissoras de televisão: Medição de sinal e sua respectiva calibração. Basicamente, esta barra de cores é um padrão de teste para que todos os equipamentos partam de um mesmo ponto, ou seja, para que todos falem a mesma linguagem de sinal e que é nomeado como espaço de cor REC 709 (sinal HD). Tudo o que é exibido hoje em uma emissora de televisão, terá a obrigação de obedecer o espaço de cor REC 709. Por isso, quando você grava as suas cenas e entrega o comercial na emissora, este tem de estar no mesmo padrão da transmissão. Em um futuro próximo, as emissoras farão uma nova transição e passarão a transmitir as imagens em UHD, e então, um novo espaço de cor será utilizado: REC 2020.

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Vamos observar com mais calma a imagem acima. Do lado esquerdo temos o espaço de cor REC 709 (sinal HD) e na direita, o espaço de cor REC 2020 (sinal UHD). Perceba também, que no centro de cada imagem existe um ponto denominado como D65, que representa o branco absoluto de uma imagem. Tudo o que existir dentro de cada triângulo, representa as cores possíveis em cada espaço de cor e tudo o que existir fora, é nomeado como sinal ilegal e não pode ser transmitido.

Pois bem, dentro de um espaço de cor REC 709 (sinal HD), a cor verde representa a luminância de uma imagem e claro, existe um limite para a sua intensidade. Já no espaço de cor REC 2020 (sinal UHD), esta cor verde é bem mais alta. Traduzindo isso, no UHD temos uma quantidade de luminância muito maior e imagens mais claras. Se eu falo que uma imagem é mais clara, eu estou dizendo que as escalas de latitude também são mais amplas. Tudo o que se fala sobre as novas câmeras de cinema 4K (UHD) e suas escalas de latitude, estão diretamente ligadas ao seu espaço de cor.

Você consegue entender que todos os detalhes técnicos possuem uma relação direta? E que uma escala de latitude não poderia sem mais ampla, se o seu espaço de cor assim não o permitisse? É como montar um enorme quebra-cabeça técnico… Tudo está interligado e se você não entender cada parte do processo e suas terminologias, será impossível trabalhar corretamente. Hoje eu leio em muitos fóruns e sites, profissionais mencionando técnicas de correção de cor, mas que não entendem de sinal ou de medição. E isso, gera uma onda de desinformação sem precedentes.

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Com a chegada das novas câmeras de Cinema Digital, a compreensão sobre o sinal das imagens ficou bem mais sofisticado. Novas nomenclaturas são descritas como: RAW, LUT, e REC 709. Quando eu gravo uma imagem RAW, qual seria o seu espaço de cor? A resposta mais simples: RGB. Então, uma imagem RAW não seria ainda um vídeo REC 709? Não!!! Será preciso em algum ponto do processo de edição ou de finalização, que este RAW seja transformado em vídeo REC 709, para estar no mesmo padrão de exibição da emissora.

Agora vamos entender melhor essa confusão. Uma câmera de Cinema Digital tem novas funções como gravar em RAW, mas exibe em seu monitor uma imagem em REC 709. Para isso, é aplicado um LUT (Look Up Table) REC 709, que nada mais é, do que um tradutor entre espaços de cor. O seu arquivo é gravado internamente na câmera em RAW e com espaço de cor RGB, mas com a aplicação de um LUT de espaço de cor REC 709, você monitora as cenas conforme estas serão exibidas na emissora.

E ainda, muitos coloristas irão me corrigir e dizer que um LUT é muito mais do que um simples tradutor entre espaços de cor. E eu terei de concordar plenamente com eles. Um LUT também pode ser um padrão criado pelo colorista e que se aplicado a uma imagem, gera um ajuste de color grading.

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Vamos observar a imagem acima com muita atenção. Este é um arquivo RAW gerado pela câmera de Cinema Digital. Do lado esquerdo, a imagem em espaço de cor RGB e do lado direito, a aplicação do LUT REC 709. Ainda não foi feita nenhuma correção de cor, apenas a aplicação do LUT REC 709. É uma simples tradução entre espaços de cor. Você consegue entender esse conceito? Espero que sim, pois isso é determinante dentro do universo do Cinema Digital.

E ainda, encontramos câmeras de Cinema Digital, que não gravam as cenas em RAW, mas geram arquivos de vídeo preservando as escalas de latitude como: S-LOG (Sony), C-LOG (Canon), V-LOG (Panasonic), etc, ou seja, são arquivos de vídeo, que também necessitarão a aplicação de um LUT REC 709. Mas como essas imagens podem ser medidas no Waveform?

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O Waveform é o seu instrumento de medição de sinal de luz  de uma imagem e possui uma escala, que varia entre 0 e 255 (para uma imagem 8 bit) ou entre 0 e 1023 (para uma imagem 10 bit). A escala do zero representa o seu preto absoluto e a escala 255 ou 1023 representa o seu branco absoluto. Na imagem acima temos a medição de uma imagem 10 bit, e além do sinal de luz, representado pela cor branca, percebemos também o azul, o vermelho e o verde. Essa medição está destinada apenas à luminosidade e não intensidade de cor, que é medido pelo Vectorscope.

De uma maneira bastante simples, os sinais de luz não podem ultrapassar as escalas de zero (preto) e de 256 ou 1023 (branco), senão serão recusadas pelas emissoras de televisão. Vale lembrar, que já mencionei as questões de engenharia e de SMPTE, e por isso, devemos seguir sempre os padrões determinados. Felizmente, instrumentos de medição de sinal como o Waveform e Vectorscope estão presentes em todos os programas de edição não-linear.

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Lembra da barra de cores desenvolvida pela SMPTE? Pois bem, a medição que você observa acima, é justamente a medição no Vectorscope desta barra. Perceba que cada cor primária e secundária estão perfeitamente alinhadas dentro de cada escala de cor. No centro da imagem do Vectorscope está o branco absoluto. Quanto mais próximo deste ponto central estiver a medição da sua imagem, menos intensidade de cor esta terá.

Se na sua medição, a sua imagem ultrapassar essas escalas de cores, também será recusada nas emissoras, pois será uma imagem ilegal. Um detalhe interessante de avaliar: Você já reparou, que a representação gráfica do Vectorscope é idêntica a de uma esfera de cor encontrada nos programas de correção de cor?

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Na imagem acima, nós temos as esferas de cor encontradas na interface do DaVinci, até aí nada de novidade para muitos profissionais… O que eu fiz para facilitar o seu entendimento, foi apenas sobrepor a representação gráfica do Vectorscope nas esferas de cores. Agora você consegue entender melhor a medição no Vectorscope? Novamente, percebe como tudo no Cinema Digital está interligado e nós nem notamos. Por isso, quando estiver utilizando uma esfera de cor, você também está visualizando um Vectorscope.

Vamos tentar resumir o nosso raciocínio… Quando você assisti uma imagem, você está realizando uma medição. Para que essa medição seja correta, o seu monitor tem de estar calibrado. Essa calibração tem de obedecer ao espaço de cor REC 709 (sinal HD) e com a utilização de uma barra de cor SMPTE. O Waveform mede o sinal de luz. O Vectorscope mede o sinal de cor. Obedeça as escalas dos instrumentos de medição para não gerar imagens ilegais. Entregue os seus comerciais nas emissoras confiante e sem surpresas!!!

Sobre Marcello Caldin:

– Editor e colorista de comerciais e filmes desde 1989.

  • Instrutor de Avid Media Composer e Symphony.
  • Instrutor de Blackmagic Design DaVinci.

– Consultor técnico para emissoras de televisão e produtoras. (Rede Globo)

  • Repórter Fotográfico. (Pastoral da Criança e Instituto GRPCOM)
  • Criador do Workshop “O Fluxo de trabalho – Uma reflexão sobre o uso inteligente da tecnologia”

Contato:
E-mail – marcellocaldin@marcellocaldin.com

Matérias antigas:

https://oeditor.com/category/marcello-caldin/

Em cada texto eu sempre busco pela sua reflexão. O nosso universo de Cinema Digital é imenso e o conhecimento envolvido está sempre entrelaçado. Cada parte se une à outra e então observamos um panorama mais amplo. Por isso, esteja sempre refletindo sobre como os seus conhecimentos estão determinando o seu trabalho. Talvez você possua uma ferramenta excelente, mas ainda não a está utilizando da maneira mais produtiva. A cada segunda-feira estaremos aqui juntos aprendendo. Espero que a cada texto estejamos mais próximos e trilhando caminhos em parceria. Um grande abraço a todos e vamos em frente!!!

 

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